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Conservatório Musical 2018-07-11T15:54:07+00:00

Project Description

Conservatório Musical

Dados Técnicos

Localização: Tatuí – SP, Brasil

Tipo de Construção: Institucional

Área do terreno: 7.690m²

Área construída: 7.233m²

Início do projeto: 2013

Equipe

Autores: Fernando Forte, Lourenço Gimenes, Rodrigo Marcondes Ferraz

Coordenadores: Renata Davi

Colaboradores: Laurent Troost

Estagiários: Marina de Almeida

Lúcio Costa, certa vez, disse que “Arquitetura e Música são ímãs, manipulando uma e outra o tempo e o espaço”. A Música opera o som e o organiza no tempo, mas, quando apresentada, é no espaço que ela finalmente ‘acontece’.

Embora haja músico sem ouvinte, é justamente nessa apresentação que a Música transcende a pura barreira da arte e da técnica, transformando-se em fenômeno social. Analogamente, a Arquitetura perverte o mesmo limite quando passa da folha de papel para a construção. Ela se materializa, então, no lugar da vida em sociedade.

Nossa proposta concentra-se na interpretação de que tanto a Arquitetura quanto a Música são mais do que uma arte. Sendo performática, a Música traz para a esfera da coletividade seus principais pilares e não pode, consequentemente, prescindir do espaço. O espaço que propomos para o novo Conservatório de Tatuí é um espaço também performático, que enfatiza o sentido coletivo da música ao mesmo tempo em que coloca o novo edifício no cerne da vida urbana.

Nosso desenho para o novo edifício tenta ser o que Goethe denominava de ‘música petrificada’. Nem tanto na eventual semelhança que as lajes podem ter com as linhas de uma partitura, mas essencialmente no preciso ‘ritmo’ da estrutura (tanto as próprias lajes quanto as colunas independentes) e na ‘melodia’ definida pelos elementos cheios em meio a um sistema de vazios (as salas fechadas ensanduichadas pelas lajes livres).

Aqui tivemos a liberdade de propor alguns ‘improvisos’, como as rampas e escadas que pervertem a linearidade das lajes, sem, contudo eliminar sua leitura de continuidade. E, porque a Música é percebida por cada ouvinte à sua própria maneira, quisemos propor espaços que permitissem diversas qualidades para diferentes interpretações. Assim como a Música, quisemos fazer uma Arquitetura viva, vibrante, prenhe de possibilidades.

O projeto começa com uma premissa muito forte: sendo um local de aprendizado, não poderia ser uma construção qualquer. O próprio sentido de coletividade, implícito na função escolar, vem a se somar ao sentido de compartilhamento, que é essencial para a música. E a escola se transforma assim em cidade, abre-se a ela, cria espaços que abraçam e generosamente convidam ao convívio e determinam um turbilhão cultural em seu interior.

O novo edifício se coloca recuado em relação à esquina, cria uma praça que pertence à própria cidade. O conservatório assume-se como um elemento fundamental da vida de Tatuí: a escola que eleva o nome da cidade a patamares internacionais adquire também uma importância local, como espaço de todos os cidadãos tatuienses. Essa bela praça estende-se por baixo do edifício, transgredindo fronteiras entre o público e o privado, e derrama-se numa praça interna, um pátio verde voltado às atividades do Conservatório. No fundo deste pátio interno, foco da perspectiva gerada pelo trajeto, impõe-se vigorosamente o grande auditório amarelo, suspenso sobre a praça e pronto para abrir seu palco para o espaço externo. Grandes portas no fundo do palco permitem que ele seja visto de fora, como acontece no auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Outras obras de arte compõem a praça, como um painel de ladrilhos de Fabio Flaks e uma escultura de Franz Weissman.

O restante do edifício, desenhado em forma de fita a abraçar a praça, tem suas circulações abertas de forma a criar uma grande platéia que enxerga tanto o grande auditório quanto o pequeno palco sobre a cantina, usado para apresentações mais informais. Desta forma, todos os espaços do edifício – internos e externos, podem respirar Música. Além disso, essas circulações periféricas e abertas têm um sentido adicional: revelar as entranhas do edifício, mostrar através do movimento das pessoas a energia e animação que dele se espera.

O edifício novo, propriamente dito, organiza-se de uma forma muito simples. Cria grandes lajes lineares com estrutura modular, permitindo que no futuro possa ser adaptado a mudanças na necessidade dos espaços internos. Como o programa era complexo, quisemos que o prédio não virasse refém dele.

Sobrepostas, as lajes são ressaltadas nas fachadas pelo recuo dos espaços fechados, que criam uma circulação periférica e acentuam o aspecto horizontal que imaginamos para o prédio. O grande corpo linear, além de criar os espaços abertos que nos são tão preciosos, têm também como finalidade unir dois dos demais edifícios do complexo: o auditório Vila Lobos e os camarins ao fundo do teatro. Com essa ‘simplificação’ da paisagem, o teatro Procopio Ferreira fica evidenciado e os usuários não se perdem entre tantos edifícios.

Ao implantar o edifício, tivemos o cuidado de setorizar os acessos e também permitir grande permeabilidade à quadra. Além do acesso principal do Conservatório, mantivemos o acesso entre o teatro Procópio Ferreira e o auditório Villa Lobos para serviços. A localização é estratégica para isso: entre os dois auditórios e com acesso à cantina. O acesso ao teatro Procópio Ferreira foi evidenciado pela eliminação do gradil que separava o jardim da calçada, criando uma nova praça urbana e valorizando o belo teatro. Por fim, o acesso de veículos e também de serviço ficou voltado à avenida em função da capacidade de suporte da via.

SUSTENTABILIDADE

Tentamos sempre fugir aos clichês deste termo, que muitas vezes impões soluções técnicas arrojadas com um resultado espacial frágil.

Nossa grande premissa é tentar resolver, através da própria arquitetura, as questões fundamentais de eficiência energética, iluminação e ventilação naturais, conforto higrotérmico etc. Desta forma, o edifício apresentado absorve essas preocupações de forma natural e integradas ao projeto, sem que isso implique um custo de construção mais elevado:

A maior parte dos ambientes fechados tem possibilidade de ventilação cruzada e conta iluminação natural superior (permite reflexão na laje para difusão da luz). A disposição espaçada entre blocos de ambientes fechados, somada à disposição estratégica de áreas abertas de convívio permitem que o edifício e a praça interna ‘respirem’, já que não há bloqueio de ventilação. Isso também é favorecido pelo formato laminar do edifício (fino e comprido), que cria uma melhor relação de ventilação e iluminação nos espaços internos.

Os corredores periféricos evitam que haja espaços fechados no edifício com necessidade de iluminação artificial durante o dia. Ao mesmo tempo, criam plataformas de sombreamento, evitando incidência direta do sol dentro dos espaços fechados. Soma-se a isso a preocupação de orientação solar na implantação do edifício, visando favorecer o sol menos quente da manhã e bloquear o sol da tarde. Nas praças, árvores ajudam a criar esse sombreamento dos espaços públicos no final do dia, quando o sol está mais quente.

A praça não é só um espaço de convívio. Ela tem também a função de criar áreas permeáveis e verdes, que ajudam a refrescar o ambiente pela ação evapotranspirativa das plantas. O espelho d’água também tem uma função dupla: ele ajuda a refrescar o ar pela evaporação da lâmina d’água, e também é um tanque de captação de água pluvial para reuso (irrigação e limpeza)

Outros elementos foram naturalmente integrados ao projeto. O teto jardim para maior conforto térmico do último pavimento e também ajuda a amenizar o microclima urbano. Painéis solares podem ser instalados na cobertura do último pavimento. Os materiais terão uma preocupação quanto à sua reciclabilidade.

Existem semelhanças de métodos compositivos entre Arquitetura e Música. O processo criativo envolve arte e técnica e definem, finalmente, um fenômeno social. Gostaríamos que o Conservatório de Tatuí pudesse demonstrar ao mundo, de forma prática, que a associação entre essas disciplinas pode produzir também um marco urbano.

 

Planta Térreo

Diagramas Ocupação

Diagrama de Conforto